Continente africano: Povos e Línguas *

        As populações que habitam o norte e o nordeste do continente (também denominado Chifre da África) falam as línguas do grupo camito-semítico ou afro-asiático. Atualmente, predominam na região o árabe, o berbere e as línguas semíticas, também faladas no Chifre. Povos autóctones da região da magrebina, os berberes, atualmente constituem apenas um quarto da população. Os arabo-berberes ficaram ao longo da história conhecidos como os mouros na península ibérica, que invadiram no século VII e colonizaram por mais de cinco séculos.

        A região do Saara até os dias atuais é uma área de cruzamento entre populações oriundas do norte e as vizinhas da África Subsaariana, conhecida no tempo colonial como África Negra. Nessa região podemos destacar quatro grandes grupos:


a) Pigmeus: constitui o grupo mais antigo, embora o menor, sendo cerca de 150 mil que habitam da floresta equatorial, dos Camarões ao Congo-Zaire;

b) Khoisan: encontram-se na Namíbia, no Botsuana e na África do sul. São conhecidos comumente como bosquímanos e habitam, sobretudo o deserto do Calaári como nômades caçadores;

c) Sar ou Hotentotes: população pastoril de aproximadamente 200 mil pessoas. Diferentes dos pigmeus, não são considerados negróides;

d) Negróides: constituem cerca de 70% da população do continente. Podem ser divididos em três grupos lingüísticos:


1) Nilóticos: Habitam a região nilótica do continente;

2) Sudaneses: Predominam em todo o território oeste africano, chamado pelos árabes de Sudão (“terra dos negros”). É uma região que se estende do Senegal até o leste do rio Níger, não devendo ser confundida com o país de nome Sudão, situado na região nilótica;

3) Bantos: Caracterizam por todos utilizarem o sufixo ntu para designar o ser humano. O prefixo ba designa o plural. Daí a palavra bantu (pessoas), aportuguesada para banto. Ocupam uma vasta área do centro e do sul do continente, abaixo de uma linha que ligaria os Camarões à região dos lagos. Cerca de 70% dos afro-descendentes do Brasil têm ascendência banta, com predominância na região Angola-Congo.

          Há duas referências equivocadas sobre o continente africano, constituindo parte do senso comum e difundido até mesmo por professores, bem intencionados: o termo dialeto para denominar as línguas africanas e tribo para designar a diversidade de organização política e social existente no continente.

        No continente encontramos cerca de duas mil línguas e suas variedades dialetais, sendo que cinqüenta delas são faladas por, pelo menos, um milhão de pessoas; cerca de seis tem mais de dez milhões de falantes. O árabe é a língua oficial de sete países do continente: é falado por mais de 150 milhões de pessoas. O haussa, originário do noroeste da Nigéria, é a língua veicular em sete países, abrangendo cerca de 70 milhões de falantes. Tinha escrita em caracteres árabes, antes da chegada dos europeus. Outra importante língua é o suali (swahili) derivado da influência árabe na costa oriental africana, abrangendo cerca de 65 milhões de pessoas, desde a costa do Índico até a metade oriental do Congo-Zaire. É a língua nacional do Quênia. Outra língua veicular importante é o lingala, utilizada por quase metade da população do Congo-Zaire.

            Além das citadas destacamos ainda outras línguas faladas por uma população de mais de 10 milhões de africanos, como por exemplo, o ioruba, o ibo e o fulani, na Nigéria; o mandiga, em ampla área da África Ocidental; o kirundi – kinyaruanda, comum aos povos hutu e tutsi de Ruanda e Burundi e da diáspora desses povos nos países da região. Na África do Sul, as línguas berbere, zulu e xhosa abrangem cerca de 75% da população, sendo essas últimas as mais usadas. Na Etiópia temos o amárico como língua veicular.

(*)Texto adaptado de PEREIRA, José Maria Nunes. O continente africano: Perfil histórico e abordagem geopolítica das macroregiões. In BELUCCI, Beluce (org). Introdução à história da África e da cultura afro-brasileira. Centro de Estudos Afro-Asiáticos – UCAM/ Centro Cultural Banco do Brasil. Rio de Janeiro, 2003 p. 12-13.

O CONTINENTE AFRICANO: PERFIL GEOGRÁFICO*

  

         A África, com 30.258.752 km², é o terceiro maior continente em superfície, sendo menor do que a Ásia (43 milhões) e as Américas (42 milhões) e três vezes maior do que a Europa, embora com aproximadamente a mesma população: 800 milhões de habitantes. Concentra apenas cerca de 13% da população mundial; a sua taxa de crescimento, no entanto, é a mais alta do planeta, com média de 2,9%.

         A distância de um lugar do interior até o mar pode alcançar perto de 1.500 km, enquanto que na Europa o máximo é de cerca de 500 km. Predominam os planaltos e a altitude média do continente o que possibilita ao continente ser o maior potencial hidrelétrico do mundo, com destaque para a República democrática do Congo (ex-Zaire; daqui em diante Congo - Zaire).

         O único rio que corre para o norte é o Nilo, o maior do mundo, atravessa o Sudão e o Egito, antes de desaguar no Mediterrâneo.  

         A África tem 75% da sua superfície situada entre trópicos. Somente as suas extremidades (toda a África do Norte e uma parte da República da África do Sul) se encontram em regiões temperadas, de clima mediterrânico. É o mais quente do continente.

         O clima tropical úmido é parecido com o equatorial pela abundancia das chuvas, mas já apresenta uma estação seca. O clima salesiano (próximo a região do Sael, nas “margens” do deserto do Saara) marca a transição para o clima desértico. O Saara é o, maior dos desertos; seus cerca de 8 milhões de km² o fazem do tamanho do Brasil. Ele faz vizinhança, a leste, com os desertos da Líbia e da Núbia. Ao sul temos os desertos da Namibe e do Calaári.

         A cobertura vegetal desempenhou um papel importante na história africana e freqüentemente dificultou o deslocamento e a subsistência das populações.

         Na área central do continente, temos a floresta densa, ou “virgem”, própria da região equatorial; a floresta “clara” é a mais encontrada nas regiões de clima tropical úmido. A formação vegetal mais comum no continente é a savana, com gramíneas e pequenos arbustos e sujeita a longos períodos de seca; é típica dos planaltos.

         O deserto do Saara é um exemplo da adversidade geográfica na história do desenvolvimento do continente. Há pouco mais de 2.500 anos, ele se constituía de uma área verdejante. O seu ressecamento isolou a África Subsaariana da África do Norte e, em conseqüência, das civilizações do Mediterrâneo. A introdução do camelo e a invasão árabe no século VII possibilitaram a ligação entre essas duas partes do continente.  

 (*) Texto adaptado de PEREIRA, José Maria Nunes. O continente africano: Perfil histórico e abordagem geopolítica das macroregiões. In BELUCCI, Beluce (org). Introdução à história da África e da cultura afro-brasileira. Centro de Estudos Afro-Asiáticos – UCAM/ Centro Cultural Banco do Brasil. Rio de Janeiro, 2003 p. 10-11.