Entrevistas
Sexta-Feira, 15 Fevereiro, 2008 — Profª Nágila Oliveira dos Santos Espaço África e Africanidades entrevista Sônia Maria Santos, pesquisadora e apresentadora que relata sua experiência junto a FUNEMAC, como coordenadora auxiliar do curso de pós-graduação Estudos Culturais e Históricos da Diáspora e Civilização Africana e sua inserção na mídia como apresentadora do programa Africanidades, na TV Litoral. Os resultados e expectativas sobre a lei 10.639/03 e a análise da inserção da mulher negra na mídia brasileira, também foram temas abordados. Inteligente, inquieta e provocadora são as caracteísticas da entrevista de Sônia Maria Santos. Veja abaixo:
Sônia Maria Santos - coordenadora auxiliar do curso de pós-graduação Estudos Culturais e Históricos da Diáspora e Civilização Africana, realizado na Funemac, doutora em Literaturas Africanas (UFRJ) e professora de Literatura Africana de Língua Portuguesa, na Fafima.

ÁFRICA E AFRICANIDADES: Quais são os principais avanços e entraves na implantação da lei 10.69/03 no município de Macaé?
SÔNIA: Nós conseguimos formar em 2006, 20 alunos de Pós-graduação em História da África e esses alunos estão ativos em suas unidades escolares promovendo eventos e conteúdos condizentes com a lei. Os entraves são advindos da má compreensão das autoridades e gestores públicos que não percebem a importância da inclusão da cultura africana nos currículos, deixando de lado investimentos para a aplicação da lei. No momento temos 12 alunos sem o pagamento das bolsas prometidas pela Secretaria de Educação para o aprimoramento profissional dos professores.
ÁFRICA E AFRICANIDADES: Como você avalia as implicações políticas da lei 10.639/03 nos últimos anos?
SÔNIA: De forma positiva. Parece até que os professores esperavam essa lei. Como somos afrodescendentes em sua maioria, a corrida por informações seguras independente da vontade política dos governantes está assegurando a eficácia de sua implementação. O povo entendeu que mudanças estão ocorrendo por causa da lei. A Escola está mais dinâmica e polêmica. Portanto, mais viva.
ÁFRICA E AFRICANIDADES: A academia e a política são espaços historicamente ocupados em sua maioria por homens e brancos. Como você avalia nos dias de hoje a inserção da mulher negra em tais espaços?
SÔNIA: Há muitos anos estamos na cozinha e as filhas das cozinheiras e lavadeiras incentivadas pela história familiar se esforçaram para ocupar novos espaços. A militância também trouxe muita consciência política às mulheres. É um fenômeno que ocorre no mundo inteiro. Penso ser a terceira onda revolucionária feminina.
ÁFRICA E AFRICANIDADES: A representação do negro na mídia é historicamente marcada pela invisibilidade do mesmo e pelo caráter estereotipado. Você pode nos contar um pouco sobre a sua experiência como apresentadora do Programa Africanidades? Como surgiu? Quais as propostas e desdobramentos do mesmo? SÔNIA: Surgiu devido a minha visibilidade em Macaé onde sou professora de Literaturas Africanas há treze anos. Depois fui coordenadora da Corafro setor da Fundação Macaé de Cultura. Por isso fui convidada a dar uma entrevista sobre a mulher negra num programa de entrevistas. Ao término convidaram-me para criar e ser apresentadora de um programa de cultura negra. Aceitei na hora sem nunca ter pensado em estar à frente das câmeras. Foi um frio estranho e prazeroso devido à descoberta. Dizem que eu levo jeito para a coisa e já acho mesmo, porque sou parada nas ruas para cumprimentos e elogios. Sei que tenho uma missão muito importante em mãos e vou levá-la a cabo enquanto a espiritualidade assim o permitir.Preciso de patrocínios para fazer projetos como: lançamento das entrevistas em livro, documentário com os melhores momentos do programa, acompanhamento de eventos pelo Brasil afora. No momento, não temos recursos para nada, pois a emissora é muito pequena e inseriu em sua grade muitos programas. O Africanidades é um programa que vai dar certo e em breve estará no domínio do público vocês vão ver. Quero agradecer a gentileza da entrevista e pedir desculpas pela demora. Quero vê-los no meu programa contando sobre esse belo trabalho na internet. Quem quiser participar é só ligar para a produção e agendar um horário com Júnior ou Vanessa Cunha pelo tel. 22- 2773-4677 Os programas acontecem ao vivo às quartas-feiras, às 22h, na TV Litoral e podem ser vistos pelo site www.tvlitoralmacae.com.br, ou ainda receber telefonemas com perguntas divulgadas no ar, através do telefone acima.
Quinta-Feira, 29 de novembro de 2007 por André Luiz dos Santos Silva e Nágila Oliveira dos Santos
1 - ESPAÇO ÁFRICA E AFRICANIDADES: Piedade, você pode nos contar um pouco da história da Articulação Negra de Pernambuco?
PIEDADE: Articulação Negra de Pernambuco surge como um espaço de discussão e enfrentamento da luta racial no estado de Pernambuco, dentro do processo de organização da I Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em 2005, bem como a organização da Marcha Zumbi +10, que foi realizado no dia 16 de Novembro do mesmo ano.
Nossa estrutura se dá em forma de fórum de discussão, aos quais organizações e ativistas negros comprometidos com fim das desigualdades raciais e denuncia do racismo em nosso estado, conectado com a diáspora vem assumindo.
Das nossas linhas de atuação temos algumas frentes, uma delas, resultado da apresentação de nossa proposta pelo então deputado Federal Humberto Costa, que resultou na lei 10.639/03, é o nosso grupo de educadores, que vêem formulando uma discussão no sentido da implementação da lei.
Outra linha de ação é a jurídica, com forte atuação do Observatório Negro, composto por um grupo de advogadas, assistentes sociais, jornalistas entre outros, que vêm promovendo ações contra empresas e órgãos do estado brasileiro, que além de não cumprirem a legislação, promovem e afrontam com os direitos da população negra em nosso país.
Uma terceira linha que está em fase de iniciação, é na discussão de gênero e o papel das mulheres negras na luta contra o machismo, a homofobia e a intolerância, sofrida e enfrentada pelas mulheres negras.
Das nossas linhas de atuação temos algumas frentes, uma delas, resultado da apresentação de nossa proposta pelo então deputado Federal Humberto Costa, que resultou na lei 10.639/03, é o nosso grupo de educadores, que vêem formulando uma discussão no sentido da implementação da lei. Outra linha de ação é a jurídica, com forte atuação do Observatório Negro, composto por um grupo de advogadas, assistentes sociais, jornalistas entre outros, que vêm promovendo ações contra empresas e órgãos do estado brasileiro, que além de não cumprirem a legislação, promovem e afrontam com os direitos da população negra em nosso país.
Uma terceira linha que está em fase de iniciação, é na discussão de gênero e o papel das mulheres negras na luta contra o machismo, a homofobia e a intolerância, sofrida e enfrentada pelas mulheres negras.
2 - ESPAÇO ÁFRICA E AFRICANIDADES: Quais os principais entraves e avanços desse movimento nos últimos anos?
PIEDADE: Dos avanços temos o fim do discusso da democracia racial que tanto tem custado em nosso país a nós brasileiras e brasileiros, o surgimento de novas organizações negras, que vão para além do aspecto artístico e cultural, a re-discussão de conceitos e valores, tais como a identidade negra x identidade nacional, surgimento de espaços acadêmicos voltados para a discussão das questões raciais.
Dos entraves, temos muitos, pois apesar de conseguirmos derrubar o mito da democracia racial em nosso país, ainda não conseguimos re-estruturarmos desta grande perversidade, fazendo com que muitos/as de nós ainda não consigamos nos reconhecer enquanto plenamente a nossa afra-descendência, temos também e como conseqüência disto uma negação de nosso ser negro no mundo; outro entrave é a grande energia que nós ativistas, acadêmicos e/ou profissionais empenhamos nesta luta,são dias, noites e anos incessantes de energias, na construção de um mundo igual e diferente, onde o respeito às diferenças e a construção da tolerância seja passos importantes na construção de um mundo novo.
3 - ESPAÇO ÁFRICA E AFRICANIDADES: Como a lei 10.639/03 vem sendo implantada no Estado de Pernambuco? Como a Articulação Negra de Pernambuco vem acompanhando e avaliando tal processo?
PIEDADE: Apesar da proposta da lei, tal qual ela foi finalizada, pois não podemos esquecer que ela é o fruto da luta do movimento negro e dos negros em movimento do nosso país, seja fruto do movimento negro pernambucano, sua implementação tem sido ínfima, temos hoje basicamente os municípios do Recife e Olinda que vem se preocupando e criando estratégia de implementação, não temos registro de outros municípios que estejam cumprindo-a; entretanto, com a inclusão do ministério público de Pernambuco, no Programa de Combate ao Racismo Institucional, PCRI, que vem se colocando no compromisso da implementação da lei em todo o estado até final de 2008.
4 - ESPAÇO ÁFRICA E AFRICANIDADES: Dentro de um contexto de luta, avanços e retrocessos, como você avalia a situação da mulher negra em Pernambuco?
PIEDADE: A participação e poder das mulheres negras nas diversa frentes de luta no estado de Pernambuco tem sido extremamente marcante e definidora, por outro lado, o estado de Pernambuco tem crescido o número de violência contra as mulheres, são assassinatos, violências físicas e morais que tem feito cada vez mais vitimas; bem como ações como o apitáço, uma experiência do Grupo Mulheres Cidadania Feminina, organizado no bairro do Córrego do Euclides que vem tentando não só coibir a violência, como também fortalecendo e apoiando mulheres vítimas de violência. O Grupo de Mulheres Cidadania Feminina, é uma das organizações que integra da Articulação Negra de Pernambuco.
5 - ESPAÇO ÁFRICA E AFRICANIDADES: A edição de Casa Grande e Senzala em quadrinhos explicita o objetivo de difundir a obra de Gilberto Freire deixando evidente uma abordagem justificadora e romantizada da escravização de indígenas e africanos, naturalmente inferiorizados em relação aos portugueses; a partir da minimização dos crimes atrozes cometidos, tais como o estupro, a tortura e, sobremaneira, na absoluta invisibilização da resistência à escravização. Você poderia nos relatar um pouco sobre o repúdio da Articulação Negra do Estado de Pernambuco e a atuação do mesmo juntamente com o Observatório Negro, no que se refere ao convênio firmado em 2006 entre a Fundação Gilberto Freire, MINC e o Governo do Estado de Pernambuco para publicação e distribuição gratuita da obra nas escolas públicas da rede?
PIEDADE: Consideramos esta edição do Casa Grande e Senzala em Quadrinhos e sua utilização nas escolas publicas de Pernambuco como um caso emblemático do racismo institucional. Tomamos conhecimento da obra em novembro de 2005, durante a realização do Curso de Capacitação de Professores para a implementação da Lei 10.639/2003 - uma ação promovida pelo PCRI (Programa de Combate ao Racismo Institucional), no âmbito da Prefeitura do Recife. A partir da denuncia feita por uma aluna do curso, professora da rede publica municipal que havia recebido o livro durante atividade promovida pela Secretaria Municipal da Educação, em parceria com a Fundação Gilberto Freyre, o Observatório Negro iniciou uma serie de ações para denunciar a utilização do livro em sala de aula, num flagrante desrespeito aos direitos humanos da população negra e indígena e ao ordenamento jurídico brasileiro como um todo, especialmente no que tange ao principio da igualdade de gênero e raça. Inicialmente, em maio de 2006, o Observatório Negro representou contra a Editora Global e a Fundação Gilberto Freyre, junto ao Ministério Público Federal, e concomitantemente encaminhou a denuncia a organizações do movimento negro e órgãos institucionais. No entanto, por um processo comum do racismo institucional no sistema de segurança e justiça – que ignora as demandas do sujeito de direito negro – a representação não teve seguimento. Por outro lado, também fracassaram as tentativas de um dialogo com a gestão municipal no sentido de impedir a continuidade de difusão da obra junto aos alunos e professores da escola publica. Durante todo o processo, a Secretaria da Educação demonstrou uma atitude de pouco caso frente às denuncias de grave violação aos direitos.
Em agosto de 2007, face à declaração do Governador do Estado, que anunciou a celebração de um convênio com a Fundação Gilberto Freyre, no qual seriam empregados R$ 100.000,00 na produção de 40 mil exemplares, a serem distribuídos na rede publica, o Observatório Negro intentou uma segunda representação, desta vez contra o Governo do Estado e a Prefeitura do Recife, junto ao Ministério Publico Estadual. Concomitantemente, encaminhou a denuncia às Secretarias Estaduais da Mulher, da Educação, de Justiça e Direitos Humanos e às Secretarias Municipais da Educação e de Direitos Humanos, a Diretoria da Igualdade Racial, aos Conselhos Estaduais da Educação, de Direitos Humanos e aos Conselhos Municipais da Educação e de Promoção da Igualdade Racial. Pelo caráter gravíssimo de violação à igualdade de gênero e de justificação à violência contra a mulher (ferindo a CEDAW, a Constituição Federal e a Lei Maria da Penha), denunciamos o livro à Conferência Nacional da Mulher, onde conseguimos aprovar uma moção de repudio à utilização do livro em sala de aula. Nesta ocasião, o Governador de Pernambuco enviou uma carta à plenária da Conferência, em que se compromete a não adquirir, não utilizar e não divulgar o livro “Casa Grande e Senzala em Quadrinhos” nas escolas públicas, nossa primeira vitória concreta no combate a esta obra racista.
O Ministério Publico Estadual de Pernambuco deu prosseguimento à denuncia apresentada e instaurou um inquérito civil, atualmente em curso, que esta sendo conduzido conjuntamente pelas Promotorias da Educação e de Direitos Humanos. Após a instauração do inquérito civil e sua publicação no Diário Oficial do Estado, a Secretaria Municipal da Educação se pronunciou, numa reunião do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial – à qual fora convocada para prestar esclarecimentos sobre o caso -, declarando reconhecer o caráter racista da obra e se comprometendo a suspender a distribuição dos livros aos alunos da rede publica.
Entendemos que este caso é um exemplo emblemático do racismo institucional porque, nos três níveis de governo – federal, estadual e municipal – apesar de todos os avanços no sentido de estabelecer uma política de promoção da igualdade racial, o poder publico demonstrou que, quando se trata de definir quais os parceiros na questão racial, o referencial teórico ainda é o da democracia racial – e o que é pior, sob uma forma extremamente violenta, pois quem teve acesso ao livro pôde perceber a violação explicita que esta obra perpetra não apenas contra os direitos humanos das populações negra e indígena, mas contra a própria memória nacional. Ressalte-se que esta parceria se da no contexto de implementação da Lei 10.639/2003, o que é uma demonstração do poder do racismo ainda ancorado em nossas instituições. Por outro lado, foi o Programa de Combate ao Racismo Institucional que nos permitiu tomar conhecimento da utilização do livro, ao discutir as relações raciais na sala de aula; assim como acreditamos que o interesse e atuação do Ministério Público Estadual se devem igualmente ao trabalho desenvolvido pelo GT Racismo, do próprio MPPE, a partir de uma parceria com o PCRI. Assim, nossa avaliação do processo, apesar de todos os percalços e dificuldades – e sem querer cantar vitória antes do tempo – é positiva, no sentido de acreditarmos que vamos avançar no Combate ao Racismo Institucional.
06 de novembro de 2007. Por André Luiz dos Santos Silva e Nágila Oliveira dos Santos.
Escritora Sonia Rosa fala ao Espaço África e Africanidades sobre seu encontro com a Literatura, incentivo à leitura, lei 10.639/03 e projetos para o futuro.

África e Africanidades: Muitos já conhecem e são apaixonados (incluindo crianças e adultos), mas para os que ainda não tiveram o prazer de conhecê-la; quem é Sônia Rosa?
Sonia Rosa: Bem, Sonia Rosa é uma menina disfarçada de adulta. Tem um olhar apaixonado sobre a vida e as pessoas. É uma pessoa muito simples e que tem uma vida normalíssima; é casada com o mesmo marido já faz 21 anos, e é apaixonada por ele. Tem três filhos lindos, trabalha em dois lugares. Acredita no amor, na vida e tem certeza de que tudo vai dar certo. Sonia Rosa é bem humorada e uma pessoa feliz e realizada na vida e na literatura. Ela gosta de falar, dançar, ler e contar histórias. Ela costuma dizer que quem conta uma história abraça alguém… Ah! E ela adora sonhar… às vezes até de olhos abertos.
A pessoa que mais conheceu Sonia Rosa foi uma empregada que ela teve que só a chamava de Dona Sonha… Essa moça realmente percebeu Sonia Rosa mais do que ninguém…
África e Africanidades: Você pode nos contar um pouco sobre como ocorreu o seu encontrou com a literatura?
Sonia Rosa: Foi a escola que primeiro me apresentou os livros de literatura. Freqüentava as bibliotecas das escolas e depois conheci as bibliotecas públicas. Na minha casa não tinha livro de literatura, só os didáticos, para estudar mesmo. Como leitora sempre preferi a poesia. Na adolescência, já íntima das palavras, escrevia poemas numa tentativa de administrar as excessivas e consecutivas paixões que “invadiam” meu coração. Depois, muito tempo depois, virei professora e contava muitas histórias para os meus alunos. Foi aí então que comecei a escrever para as crianças e batalhar para entrar no “mundo dos livros”. Não foi nada fácil. Aliás, todas as minhas conquistas sempre foram conquistas…
África e Africanidades: Você tem uma relação muito especial com a literatura infantil. Você pode nos contar?
Sonia Rosa: Sou escritora de literatura infantil. Tenho vários outros contos para adultos, que não pretendo, por enquanto, publicá-los. Gosto muito de crianças. E elas também gostam de mim. Aliás, como já disse lá em cima “sou uma menina disfarçada de adulto!”. E tem mais, sou uma menina de tranças… Escrever para elas é uma forma de estar cada vez mais perto da pureza e autenticidade que elas exalam.
África e Africanidades: As deficiências de ensino e aprendizagem do processo de alfabetização se apresentam como algumas das maiores preocupações e desafios da educação brasileira nos dias atuais. Como pedagoga, professora e escritora como você avalia essa questão? Quais os caminhos e desvios necessários?
Sonia Rosa: É uma questão muito complexa. Envolve não só a Educação, mas a sociedade como um todo. As deficiências são de toda ordem. É muito difícil aprender ler e escrever quando você não tem condições dignas de vida, sem pai, mãe, casa, sem aceso a cultura, ao esporte, a comida, ao emprego, a uma moradia digna, a um saneamento básico respeitoso, a um sistema de saúde eficiente que trate se seus dentes e de sua saúde de forma preventiva. Enfim, são muitas questões. Claro que em alguns lugares apesar de tantas adversidades a criança da escola pública consegue ler e escrever. Isto acontece quando existe, uma política educacional que proporciona ao alunado uma educação de qualidade criando espaços de aprendizagens interessantes e lúdicos, onde as crianças possam desenvolver as suas potencialidades.
Acredito que o melhor caminho é o contato com vários livros de literatura de qualidade. Esta é uma oportunidade que as crianças precisam ter para desenvolverem o seu “estético”, o seu ético. Além, é claro, de ampliar o seu conhecimento de mundo. Precisamos dar sonhos para as nossas crianças. O sonho é uma excelente material para aprender a ler, escrever e viver…
África e Africanidades: Nas escolas públicas, principalmente, podemos perceber um desencantamento com a leitura tanto por parte de professores quanto de alunos. Como resgatar esse encanto e esse prazer pela leitura?
Sonia Rosa: Não podemos generalizar encontramos belíssimos trabalho em algumas escolas públicas. Para os professores e professores com seus alunos tanto de escolas públicas quanto privadas, recomendo: visitar as Salas de Leitura de suas escolas, as Bibliotecas Púbicas, as feiras de Livros, Salões de Livros, Bienais, Livrarias e compartilhar histórias e livros nas suas salas de aula. Dar livros de presente também é uma boa estratégia de resgate do encanto.
Não tenho dúvidas, que é preciso que o professor seja um verdadeiro apaixonado pela leitura para poder fazer de seus alunos leitores também. A busca do prazer da leitura é uma conquista que se faz ao longo da relação livro/leitor. É possível. Mas é preciso começar esta relação e estreitá-la cada vez mais. Começando com a poesia, os livros de contos, os livros infantis é o caminho possível para o encontro deste prazer.
África e Africanidades: Você pode nos falar um pouco sobre a sua experiência junto a Secretaria Municipal de Educação do RJ em programas de incentivo à leitura? Qual o impacto da lei 10.639/03 nesses programas ou vice-versa?
Sonia Rosa:
Não existe propriamente um programa de incentivo a leitura. Existe uma ação permanente de formação de leitores e promoção da leitura pela Divisão de Mídia Educação da Secretaria Municipal de Educação, local do meu trabalho, junto aos professores das l.058 escolas da rede municipal de ensino. Lá, o nosso público alvo é o professor de “sala de leitura” das escolas. Já faz quase dez anos que a prefeitura do Rio destina em todas as Bienais do Livro e Salões de Livros uma verba para cada escola comprar, autonomamente, livros para enriquecer, cada vez mais, o acervo bibliográfico da sua sala de leitura.
Quanto a lei 10.639/2003 não causou tanto impacto para o departamento que trabalho. Sempre fomos sensíveis às questões afro-descendentes, logo, abraçamos a lei e a entendemos como uma verdadeira conquista. As ações ainda não estão do jeito que gostaríamos, mas estamos caminhando. Fizemos uma parceria com o pessoal do Canal Futura com o projeto deles (não só deles, é claro!) chamado a Cor da Cultura. Envolvemos várias escolas no projeto e foi a equipe da Divisão de Mídia, onde trabalho, repito, que intermediou esta parceria. Foi um sucesso! As escolas envolvidas adoraram trabalhar a temática. Mas, não posso deixar de dizer que outros departamentos aqui na SME (Secretaria Municipal de Educação), como o DEF (Departamento de Ensino Fundamental) trabalham com a temática a partir de projetos, capacitação continuada de professores e compra de livros sobre a temática.
Existem ainda duas ações que considero interessante. Todo o mês nos contra-cheques de TODOS os professores da prefeitura do Rio de Janeiro tem um “bônus cultura” ( mais ou menos setenta e cinco reais) para facilitar o acesso a cultura em geral, teatro e cinema e LIVROS. Anualmente o prefeito “presenteia” TODOS os professores com um “vale livro” de cinqüenta reais. O professores têm seis meses para usar o seu vale. O triste é que muitos colegas, por inúmeras razões de ordem pessoais, nem consideram este bônus, como um bônus com fim específico. Também, tenho notícias que alguns professores perderam o prazo do vale livro.
Os professores da rede municipal de ensino têm desconto de cinqüenta por cento nos cinemas e teatros da cidade. Oportunidades são dadas, isto não podemos negar! A vida é difícil pra todo mundo mas com cultura e principalmente com a LITERATURA fica muito melhor viver!!!! Nossa! Falei muito!!!! Mas é tudo verdade!!!!
África e Africanidades: Sônia, nos últimos anos, você vem se tornando uma referência na literatura infanto-juvenil sobre as temáticas africanas e afro-brasileiras. Como isso se deu? Quando você se despertou para essa temática? Como você avalia a receptividade de seus leitores? O que isso vem significando para você?
Sonia Rosa: Tenho muita alegria de saber que me tornei uma referência nesta temática. Acredito que a minha literatura reflete a minha vida, a minha forma de entender e conceber o mundo. Minha vida inteira fui rodeada de pessoas negras, mulatas. Quando escrevi o Menino Nito, por exemplo, desejei que o personagem principal fosse negro. Não foi uma bandeira que carreguei. A coisa aconteceu naturalmente… Gostei do resultado e tenho muito orgulho de ter “O Menino Nito” como um dos primeiros livros infantis com personagens negros e sendo estes protagonistas, numa situação confortável. Hoje, tenho uma preocupação enorme de colocar sempre personagens negros nos meus livros. Faço questão. E todo mundo sabe disso. Os ilustradores que trabalham com os meus livros sabem dessa minha preocupação. Eles entendem e colaboram. E eu fico feliz! Tenho também a coleção Lembranças Africanas: Jongo, Maracatu. Capoeira, Feijoada e O Tabuleiro da Baiana, que considerando a lei podem servir de um ponto de partida para se discutir as nossas, tão nossas, questões afro- brasileiras dentro da escola.
África e Africanidades: Quais os projetos para o futuro?
Sonia Rosa: Vou relançar o Cortes e Recortes que é um livro que está distratado da editora Ao Livro Técnico. E também lançarei em 2008 o livro Como é bonito o pé do Igor! Este último será todo de massinha, igualzinho aos outros dois: Cadê Clarisse? e o Lá vai o Rui…. Os meus filhos são Igor, Clarisse, Rui. Os dois últimos já têm livros e só o Igor não tinha. Com este novo livro completo a minha trilogia de mãe-escritora. Tenho também muitas histórias que estão doidinhas para virarem livros. È só aguardar… No momento tenho 22 livros e já estou feliz. Aliás, muito feliz!!!! Em breve terei um site para que os meus leitores e amigos possam saber das minhas notícias atualizadas, além, é claro, de me deixarem recados.
É isso, gente! Viva a literatura! Viva a nossa africanidade!!!!
Quinta-Feira, 04 de outubro de 2007. Por Nágila Oliveira dos Santos.
